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09.09.2009
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Por O Taboanense
Especial para o Portal O Taboanense
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Liceu de Artes: Agregação, Formação e Sociabilidade em Cultura


Por Najara Lima Costa

“Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?”
Bertold Brescht (1898-1956)

 

Debater cultura dentro da realidade social brasileira pode até soar como provocação tamanha a forma a qual assimilamos e percebemos as “prioridades” de Estado. O assunto torna-se ainda mais prolixo ao consideramos estatísticas que ainda retratam grandes disparidades nas suas formas de acesso.

Dados da última pesquisa realizada pelo IBGE  e informadas pelo Minc  em 2008 assinalam que 93% dos brasileiros nunca foram a uma exposição de arte ao mesmo tempo em que apenas 14% freqüentam salas de cinema. Em primeira instância tais elementos informativos além de proporcionarem reflexões acerca das hierarquias de origens sociais, também revelam que o espaço social, qual estamos inseridos, favorece na assimilação de inúmeros valores . O desafio a partir deste contexto é justamente mudar paradigmas por tanto tempo estagnados e possibilitar novas condições e concepções estéticas.

Pensemos agora em nossa realidade local. As efetivações de projetos que atendam nossas demandas por vezes constituem-se com lutas que se deflagram em infinitos contra-sensos. À medida que a história avança suscitam-se interpretações sobre valores circunstanciais, enquanto que conseqüências estruturais e dinâmicas de ações políticas específicas fomentam ou eliminam oportunidades.

Sabemos que a inanição de recursos não é determinante para indivíduos que pensam a cultura como um alicerce que integra pessoas a sociedade. A própria constituição de ambientes e grupos de resistência em Taboão da Serra é perceptível desde espaços como CANDEARTE, TESOL, Mini Cine-Tupi, além de movimentos de expressão espontânea da linguagem como o Hip Hop Atitude e tantos outros.

Manifestações culturais oriundas dos estigmatizados expõem que estes encontram na arte a expressão e o sentimento de pertencimento com seu espaço independente do auxílio do poder público, contudo, como o estado pode hoje pensar novas políticas sociais fomentadoras de manifestações culturais e que não estejam contaminadas pela obliqüidade do assistencialismo?

É compreensível que o personalismo ou pelo menos sua tentativa a partir da “politicagem” em cultura aflora discordâncias que facilmente minam propostas. Por outro lado a mudança no caráter da acessibilidade hoje no município é vista com muito estranhamento por alguns que consideram sua representação com maior influência. Como é aceitável que presentemente pessoas tenham o mesmo direito ao acesso a cultura, sejam elas amigas de quem forem? Como é possível a existência de um projeto intergeracional  e com sujeitos tão diferenciados racialmente e socialmente?
 
A resposta para esta questão é bem simples: A nova política cultural que se instalou comunga do pensamento de que poucos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar. Para tanto, é necessário, acima de tudo, criar oportunidades.

A formação cultural longe de competir apenas aos membros das classes privilegiadas deve sim proporcionar aos menos abastados possibilidades de se familiarizarem com a arte. Esta proposta não sugere, no entanto, que conhecimentos adquiridos atuem como panacéia em meio a uma vivência por vezes tão perversa, mas algo necessário frente à perplexidade social que tanto nos brutaliza.

O Liceu de Artes Municipal de Taboão da Serra, atual sede da Divisão de Cultura, constitui-se hoje como o único espaço público da América Latina que possui aprendizado gratuito direcionado a qualquer indivíduo que almeje iniciação em qualquer área das artes o que faz com que este público também compreenda suas intersecções. Nesse ambiente encontramos pessoas das mais diversas faixas etárias, classes sociais e etnias, justamente por que seu conceito pauta-se no princípio da multiculturalidade e na adoção de políticas de neutralização dos efeitos discriminatórios.

No âmbito de debates de promoção e ampliação do acesso aos bens culturais é perceptível que este local é um instrumento de inclusão sócio-cultural que se fortalece dentro de uma linha de abertura, aproximação e agregação. A compreensão sociológica de um projeto como este também se constitui pela inovação no método. Sua interação espacial proporciona aprendizados que instituem interfaces entre áreas conduzindo escultores(as), grafiteiros(as), atores(as), músicos(as), bailarinos(as) e outros(as) artistas a um universo de linguagens diversificadas e enriquecedoras.

O método de ensino neste ambiente se estabelece pela sensibilização e entendimento do conceito da criação e liberdade artística. O aluno leva e transmite aprendizados em uma atmosfera que se opõe aos obscurantismos e essencialismos, já que diferenças sociais deixam de se tornar desigualdades facilitando a acessibilidade e inclusão de pessoas antes excluídas das políticas públicas de acesso à cultura na cidade.

A mudança no perfil das pessoas interessadas em cursos na área cultural em Taboão da Serra é um agregador que subverte uma antiga lógica. Somente uma base que se fortifica pelo viés do alcance coletivo permite com que homens, mulheres, crianças e idosos aprendam e desenvolvam momentaneamente e aos seus modos a cognição de conceitos em arte e cultura.

Se a arte é a capacidade humana de transmitir estados de espírito por meio de sensações, a sociabilidade e a convivência entre pessoas tão distintas também auxilia neste aprendizado. Resta dizer que esta formação não supõe etapas por não prever um término e que neste momento a “arte pela arte” não se faz conexa por não favorecer a inovação critica e transformadora.

Trabalhar democraticamente cultura implica antes de tudo entender o período, as condições locais e as necessidades em que se vive, pois o espaço não será adequado para seu desenvolvimento se não existirem primeiramente pessoas interessadas e preparadas para a nova linguagem. Frutos de um trabalho em formação voltados para a reflexão e para a criação de apreciadores das artes certamente não são colhidos com tanta rapidez, mas tornam-se imprescindíveis de serem plantados em nossos tempos ainda tão sombrios.
 



Najara Lima Costa tem 28 anos e é socióloga formada pela UFF - Universidade Federal Fluminense. Foi diretora da 53ª Paixão de Cristo de Taboão da Serra e atualmente é apresentadora da TV Multimídia Baobá de Cultura Afro brasileira além de professora de teatro do Liceu de Artes Municipal. Exerce atividades culturais e de pesquisa há mais de 12 anos.

 

 

 

Comentários dos Visitantes
1
Parabens!!! adorei o artigo...
bia couto
jd taboao
 
2
Parabéns najara pelo texto e pelas opiniões expostas.eu já participei de cursos no liceu de artes e só tenho a agradecer porque me proporcionou um desenvolvimento muito grande e me fez ver a cultura com um olhar mais social e critico.iniciativas como essas devem servir de exemplo para que mais projetos como esses sejam elaborados e colocados em pratica. najara você sem duvida é uma excelente profissional e uma grande artista, são de pessoas como você que taboão precisa com um pensamento amplo que se preocupa com as pessoas e de como levar cultura e conhecimento. sucesso sempre!
Edison Luiz Pereira
Jd. Monte Alegre
 
3
Na minha opinião a mais bela paisagem de taboão da serra vê-se em quadros biológicos e em faces de vidas. aliás, tão inenarráveis quanto a sabedoria singular daqueles que as originaram;idem, seres tão especiais quanto a beleza da obra da natureza, cujo, pintor nos presentiou najara, naruna, naluana e felicidades. abslutamente, agradeço a deus, o grande artista, por nos conceder essas reliquias. najara costa "najinha": parabéns pelo artigo!!! quando nos situamos com palavras, nos situamos com poder e consequências, sobretudo, com transformações. todavia, o melhor de tudo é quando acreditamos que somos uns dos instrumentos dessas transformações.
Ramair Libarino Amaral
JD Maria Rosa
 
4
Najara parabéns pelo artigo e pela defesa das suas crenças. ninguém é dono da cultura. ela foi construída pela humanidade e deve ser apropriada por todos. todos nós,cidadãos, temos que participar e militar pela construção e criação de novos espaços. abraços para todos. prof. joão medeiros
João Medeiros de Sá Filho
Jardim Maria Rosa
 
5
O liceu de artes de taboão da serra precisa ser defendido pela comunidade. saímos da política de eventos para uma política de cultura. o texto acima define bem esses aspectos. wladimir raeder
Wladimir Raeder
Parque Assunção
 
6
Najara, parabéns pelo artigo. É perceptível o quanto você se dedica e defende a cultura e o livre acesso da população a ela. parabéns!
Ludmila Oliveira
Rio de Janeiro
 
7
Najara, parabens pelo artigo, felizmente temos pessoas sensíveis ainda no meio político que entendem cultura e arte como instrumentos de transformação e inclusão, que são visionários e entendem que a vontade política de fazer é muito mais importante que verba, e sendo assim, deixaram a politica de eventos para se dedicarem à questão fa formação e fruição nesta cidade onde tive o imenso prazer de ter faeito parte do corpo funcional ainda na criação do referido liceu, parabens a todos e todas taboanenses pelo equipamento, lugar de grande transformação sociocultural. luiz vanderlei franco domingues produtor cultural santo andré
Luiz Vanderlei Franco Domingues
V. Helena - Santo André
 
8
Najara, concordo com você que a cultura deve ser disponível a quem por ela tiver interesse, independente da classe social ou racial. o interesse pela cultura está muito além da disponibilidade financeira, pois conheci taboanense que após enfrentar longas jornadas de trabalho diarias ainda dipunha de folego para ensaios de peça de teatro ate altas horas da madrugada, e 5 horas depois está de pé para novas jornada de trabalho. fico sinceramente muito feliz por taboão não esperar a cultura "chegar" a ela, mas criara sua propria historia, oferendo um espaço e profissionais interessados em desenvolver um trabalho serio e de qualidade com os moradores da redondeza, permitindo que cidadãos com poucos recursos financeiros tenham acesso a um espaço como o liceu de artes, incentivando e desenvolvendo a cultura. espero que outras cidades sigam o exemplo de taboão, pois acredito que o mundo é feito de oportunidades, que devem está disponíveis a todos, não restrigindo a um determinado grupo. vejo na cultura, uma luz para amenizar ou solucionar vários problemas socias. adorei o artigo.
Clecia Satel
Londrina - PR
 
9
Najara estou surpreendido pela profundidade e abrangência de seu texto. ele resume muito do que discutíamos no forum de cultura do campo limpo e que hoje vamos enfrentar com nossa cooperativa de musicos(www.coopermusp.blogspot.com), por isso peço autorização para colocar um link do seu texto no nosso blog pois acho de grande pertinencia pensarmos na educação e/ou iniciação artística como um direito e oxalá todos os municípios tenham guerreiros artistas como voces e politicos sensatos que permitiram a taboão da serra atingir este grau de escelencia no trato d cultura e da politica social. axé
Clodoaldo Cajado
Capão Redondo
 
10
Queria saber onde tem aula de intumentos gratis...
Geovanni
parque são joaquim
 
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