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16.05.2009
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Mestre Alcachofra: ícone da Capoeira no Brasil

“Eita! quanta coisa
tu tens pra contar...
não conta mais nada, 
pra eu não chorar”.
(Solano Trindade)

 

*Por Márcio Amêndola de Oliveira

 José Nunes de Carvalho, mais conhecido como Mestre Alcachofra tem 53 anos, completados na sexta-feira, 15 de maio. De infância humilde, nasceu em Salvador, na Bahia, daí seu talento de ‘sangue’ para sua grande arte, a Capoeira. Menino, foi criado nas ruas do Pelourinho, onde meninos pobres brincavam e se espalhavam à cata de turistas, pra ‘explicar tudo’ sobre as velhas igrejas coloniais baianas da primeira Capital do Brasil.

Pau-de-Arara
Com 11 anos de idade, em 1967 chegou sozinho a São Paulo, acompanhado apenas de um primo, num ‘pau-de-arara’ (um caminhão com bancos de madeira e proteção de lona), nos mesmos moldes da migração do presidente Lula, vindo de Garanhuns para São Paulo no final dos anos 50. Por aqui, já estavam seus pais, Maria Nunes de Carvalho e João Alves de Carvalho, que moravam num barraco da favela do Vergueiro, na Vila Mariana e receberam o filho com a alegria e o ‘desaperto’ no coração, por conseguirem juntar novamente a família.

Sacolas das Madames
Ainda aos 11 anos, Alcachofra começou a trabalhar fazendo carretos em feiras livres do bairro. O trabalho consistia em carregar mercadorias para as mulheres que faziam compras na feira. O menino franzino, muito magro, carregava as pesadas sacolas das madames em troca de alguns ‘tostões’. Mas não ficava com todo o dinheiro. Entregava para sua mãe, além de um carrinho cheio de verduras, que conseguia no final da feira. O carrinho foi construído pelo próprio Alcachofra, de um caixote de bacalhau e rodinhas de rolemã (rolamentos usados de caminhão). O pequeno José (que ainda não se chamava Alcachofra) comprava seus próprios cadernos, lápis e borrachas para estudar na Escola Estadual Marechal Rondon, existente até hoje no bairro de Vila Mariana. De lá, saiu com o diploma do primário. Seus pais tiveram mais um filho, Jorge, no final dos anos 60. Depois, foi ganhando mais irmãos: Celso, Marli, Dulcinéia e Rubens. Com exceção de Celso, já falecido, todos os irmãos e os pais de Alcachofra são vivos, todos residentes em Embu atualmente. Aos 14 anos, José Nunes consegue seu primeiro emprego de carteira assinada, como pacoteiro do antigo Supermercado Peg-Pag (comprado pelo Grupo Pão de Açúcar), onde trabalhou por 3 anos, chegando a encarregado de portaria.

Foto: Divulgação

Mestre Alcachofra e Grupo durante apresentação no dia 1º de Maio 78

Barraco demolido pelo Exército
Aos 15 anos, em 1971, o jovem José Nunes e toda a sua família passaram por uma grande tristeza. O barraco onde morava na Vila Mariana, bem como toda a sua favela, foram demolidos pelo comando do Exército, sem aviso prévio, sob a alegação de ser um terreno particular invadido. O proprietário, bem relacionado com a ditadura militar, conseguiu a ‘reintegração de posse’ à força, sob a alegação de que a Favela do Vergueiro era dominada por ladrões. De fato, José se lembra que os moradores honestos e trabalhadores passavam grandes dificuldades nos constantes confrontos entre os bandidos e a polícia. “Nosso barraco tinha a grossura de cinco tábuas, pra tentar barrar as balas dos tiroteios”, lembra Alcachofra.

Chegada a Embu
E foi exatamente em 1971 que toda a família de José Nunes, sem mais ter onde morar em São Paulo, decidiu desembarcar na periferia de Embu, no Jardim Santa Emília. O pai de José conseguiu comprar uma pequena casa de tijolinhos de barro e telhas, pertencentes a um tal de senhor Augusto, proprietário de dezenas de imóveis humildes naquele bairro. O Jardim Santa Emília não tinha praticamente nada. “Era uma capoeira só, não tinha comércio, igreja, era só mato e poeira. Quando chovia, o único ônibus que servia o bairro na linha Jardim Santo Eduardo a Jd. Maria Sampaio (São Paulo) tinha que trafegar com correntes amarradas nas rodas, pra não patinar na lama”, recorda. Estudou na escola do bairro e seguiu lutando juntamente com sua família.

Nasce o ‘Mestre Alcachofra’
E o jovem José Nunes, já com 17 anos, começa a se transformar no ‘Mestre Alcachofra’. Entra em contato com a Capoeira, através de uma academia, na Rua Butantã, em São Paulo. Lá, aprendeu seus primeiros passos na arte vinda da África, mas não parou por ali. Seguiu estudando, fez cursos em várias academias, participou de cursos na Federação Paulista de Capoeira, de congressos em São Paulo, na Bahia, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, entre outros. Em 1978, aos 22 anos tornou-se Mestre em Capoeira e passou a dar aulas e abriu sua própria Academia, a Associação de Capoeira Filho de Ogum Beira-Mar. Seu nome, ‘Mestre Alcachofra’ foi um apelido que recebeu de um de seus professores. Pioneira, sua academia era a única da Região Oeste da Grande São Paulo, além da instalada no bairro de Pinheiros.

Origens Africanas
A Capoeira é uma dança nascida de uma arte marcial (luta) inventada pelos antigos escravos africanos, que fugiam do cativeiro imposto pelos senhores de engenho, para as ‘capoeiras’, matas baixas do sertão, onde treinavam a auto-defesa corporal, já que não tinham armas para se defender. Da luta, com o tempo, nasceu a dança, que acabou se desvinculando da violência que a gerou.

Em 1980, o grupo do Mestre Alcachofra participou da inauguração do Estádio Municipal Hermínio Espósito (que na época chamava-se Joaquim Mathias de Moraes). A apresentação dos ‘Capoeiras’ de Embu foi aplaudida pelas milhares de pessoas presentes à festa.

Projeto ‘Capoeira nas Escolas’
Em 1983, no governo do prefeito Nivaldo Orlandi, Mestre Alcachofra passou a integrar o grupo de professores na área de Esportes, e a Capoeira foi incluída no currículo das escolas Municipais. Milhares de crianças de Embu tiveram contato pela primeira vez com este esporte genuinamente brasileiro. Seu trabalho na prefeitura permaneceu até 1988, quando foi interrompido por sua demissão no governo Quinzinho (1989-92). Neste período Alcachofra sobreviveu de sua academia e de um emprego em São Paulo.

Foto: Divulgação

Mestre Alcachofra que acaba de completar 53 anos

No governo Puccini (1993 a 1996), Mestre Alcachofra voltou a ministrar aulas para as crianças da rede municipal de ensino, atingindo 3.600 crianças de 45 escolas. Nesta época, foi aprovada a Lei que autorizou a realização do Festival Brasileiro de Capoeira, coordenado por Mestre Alcachofra em Embu, realizado anualmente até 1996. A Rede Globo de Televisão interessou-se pelo ‘Projeto Capoeira nas Escolas’, idealizado por Alcachofra e que atraia tantas crianças. Entre 1994 e 1996 integrou o Conselho Municipal de Turismo e Cultura de Embu.

O trabalho em Embu foi novamente interrompido em 1997 pela demissão de Mestre Alcachofra pelo prefeito Oscar Yazbek, que também aboliu o Projeto Capoeira nas Escolas. A alternativa foi trabalhar fora da cidade. Mestre Alcachofra levou seu trabalho para Itapecerica e Taboão da Serra, até 2004, quando o premiado professor Mestre Alcachofra voltou a ser apenas José Nunes de Carvalho. Sem condições financeiras para reabrir uma academia, José passou a viver de empregos temporários, entre os quais um de Segurança Patrimonial, na Avenida Angélica, em São Paulo.

O grande sonho
O grande sonho de José Nunes é voltar a ser o Mestre Alcachofra, professor e difusor da cultura afro-brasileira da Capoeira, a grande dança de resistência dos antigos escravos, e o primeiro esporte verdadeiramente brasileiro. Ao completar 53 anos, o mestre tem um oceano de experiência e um mundo a reconquistar. Basta que homens públicos (ou não) sensatos saibam revalorizar um profissional e um esporte que tem a cara do Brasil e dos Brasileiros. O menino franzino que chegou da Bahia num pau-de-arara há mais de 40 anos ainda tem muita história pra contar.

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*Márcio Amêndola de Oliveira é Assessor de Comunicação da Câmara de Embu e graduando em História pela USP.

Comentários dos Visitantes
1
Eu sou um das alunas do mestre alcachofra e falo que esse homem e maravilhoso eu aprendir muitas coisas com ele mas como teve a eleição o em tabobão da serra o mestre novamente foi mandado embora e o nosso sonho teve que parar, sonho muito que o mestre volta a dar as aulas dele era um astral maravilhoso todos os alunos tinha comprometimento de ir aos sabados e domingo e ele fazia festival em outras escolas no cemur. quando tinha que treinar ele era bem determinado adorava ver ele dizer famos lá que vc consegue. eu acho que ele é um dos melhores mestre do mundo e aonde ele estiver estarei sempre junto dele. mestre o senhor mora no meu coração e de muitos capoerista que sente a sua falta.
Alessandra de Oliveira
Sitio das Madres I
 
2
Fiquei muito felis por ver está materia de reconhecimento do trabalho do querido mestre alcachofra,e quero fazer um apelo a todos que ver essa materia o mestre tem muita coisa a ensina ,tem muita criança na rua que poderia está praticando a capoeira com ele ,taboão, são paulo,o brasil precisa de guerreiro.
Anderson Oliveira
Stio das Madres
 
3
Esse é meu mestre ligeiro lelê, esse é meu mestre ligeiro lalá... sim, o mestre é um incrível profissional da capoeira, maculelê, samba de roda, puxada de rede e da arte brasileira em si... ele sempre ensina os seus alunos com muita seriedade e disperta além da motivação interna de cada um, a importancia dos bons modos e sobretudo o respeito. espero em breve poder dizer que depois de 3 anos sem treinar capoeira, "voltei às aulas de mestre alcachofra". sou aluna dele desde os meus 7 anos de idade e hoje aos 20 ainda mantenho o respeito e a fidelidade ao grupo e ao mestre, espero ansiosamente pelo seu retorno.
Angélica Salom
Embu
 
4
Eu também já fui aluna do mestre alcachofra , tenho muito orgulho de dizer que durante 3 anos participei de seus eventos , aulas diferenciadas e animadas . se hoje sei algo em relação a um pouco da cultura brasileira que é a capoeira , puxada de rede , o samba de roda o maculelê , . . . . etc devo agradecimentos a ele , por que o mestre alcachofa quem me ensinou . fiquei muitissímo feliz em saber que o senhor iria voltar , eu acredito que o capoeira que é realmente capoeira ele sempre volta . um super beijo de uma pessoinha que sempre lembrara o senhor e fará sempre uma fizita .
Jessica Dias Ferreira
Jd. Dracena
 
5
Adoreiiii ser aluna do mestre agora estamos inaugurandoo de novoo e para mim é como se fosse de geração há geração... eu e minha familia adoramos ele... bjsss
bruna stephanie dos anjos
embu
 
6
Mestre alcachofra parabens pela dedicação,que deus te abençoe a cada dia e que vc possa ver completamente restabelecido o seu projeto
fabio augusto miranda
jd vazame
 
7
Com certeza está sendo muito especial retornar com o mesmo mestre que treinava com o meu pai e irmãos, formou praticamente todos os meus irmãos,e hoje volto trazendo comigo sobrinhos,amigos e minha filha de 2 aninhos.e no mais ele manda muito bem ao meu ver é o melhor mestre,torço para que restabeleça novamente o projeto capoeira nas escolas.parabÉns forÇa guerreiro! que deus continue te abenÇoando
Edileusa Miranda
Campo limpo
 
8
Salve mestre tenho orgulho de aprendido capoeira contigo de ter ido á brasilia e voltar com uma medalha de campeão
Flavio de oliveira
embu guaçu
 
9
Eu fiquei muito feliz com essa essa matéria ,pois eu iniciei a capoeira com o mestre alcachofra, e o meu primeiro cordão peguei com ele no embu das arte, isso foi em 90 .eu dela pra cá nunca mais parei e se formei na capoeira cono professor . obrigado mestre por tudo que o senhor nós fez .
marcio rogerio de paiva
CENTRO (CAUCAIA DO ALTO)
 
10
Mestre alcachofra um exemplo de homem,tive c/ ele uma lição de capoeira e principalmente uma lição de vida.mestre alcachofra nunca foi a favor de violência principalmente envolvendo a capoeira,sempre ensinou que a capoeira é uma arte e não um modo de arrumar confusão. obrigado mestre.
Denner Luan Aguiar
Pq Edu Chaves
 
11
Nunes quero muito saber da lucia sou amiga dela perdi o contato com ela ja morei na sua casa por favor me ajuda
rosimeire antonia de souza
centro
 
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