Vereador diz que “problema cultural” impede leitura de jornais
Logo após retardar a aprovação de um projeto de lei do Executivo, que beneficiaria milhares de famílias carentes com a isenção de pagamento de impostos, conforme denunciou reportagem publicada na Gazeta SP
(www.gazetasp.com.br) há 10 dias, o vereador de Taboão da Serra, Alexandre Depieri (PSB), “encontrou” os culpados para justificar seu pífio mandato e resolveu, do dia para a noite, atacar a imprensa do município.
Durante sessão na Câmara de Vereadores, no último dia 11, o parlamentar, se valendo de um comportamento antiético e pueril, utilizou a tribuna da Casa para dizer que o povo da cidade (esse mesmo que o elegeu) não lê jornal devido a um “problema cultural”.
A declaração, além de “ofender” os profissionais de comunicação que cobrem a “arte circense” protagonizada no palco da Câmara, às terças-feiras, tenta “deslegitimar”, maquiavelicamente, o interesse público pela informação, sob a acusação de que a imprensa regional não produz conteúdo adequado, prática potencializada pelo ainda relacionamento amador existente entre os meios de comunicação e os anunciantes.
Se por um lado a declaração do vereador busca “minorizar” o trabalho da imprensa, por outro chama a atenção para o seguinte fato: se o povo da cidade não lê jornal, porque que todas as semanas, estrategicamente, sua fotografia aparece estampada em coluna social, de um jornal impresso, com atividade no município há mais de 30 anos?
Qual o interesse teria uma autoridade de se “fazer aparecer” nas páginas de uma “mídia falida” se o povo inculto, principalmente seus eleitores, sequer perderá seu “mesquinho tempo precioso” para ler uma notícia de capa?
A atitude do parlamentar, além de incoerente, não reflete a realidade. Para ele, talvez, só “presta”, ou vale a pena ser lida, a notícia (sem pé nem cabeça) que anuncia, por exemplo, sua visita à Secretaria de Assistência Social, numa tentativa “mínima” de tentar justificar o seu abandono à área que foi responsável pela maioria de sua votação nas eleições 2008?
Agora a pergunta que não quer calar: qual o grande projeto de lei apresentado pelo nobre vereador, nesses 17 meses de mandato, que prevê a melhoria da cultura ou o melhor interesse público pela notícia jornalística produzida à população taboanense?
Qual o grande projeto de lei apresentado por Depieri que repara, segundo suas próprias palavras, a histórica falta de cultura ou interesse pela leitura dos jornais? Será que o parlamentar sabe mesmo a quantidade de jornais que chegam às casas das pessoas semanalmente ou o debate estabelecido por ele resume-se apenas à picuinha pessoal por não ocupar o noticiário regional?
Lamentavelmente, a declaração do vereador é um descalabro à sua atividade parlamentar que, pelo menos no discurso, convencionou-se a ser pautada na ética e na defesa dos organismos sociais. A imprensa regional, apesar de desunida em detrimento de interesses individuais, jamais produzirá pautas pensando em não levar sua mensagem ou estabelecer um diálogo com os leitores.
Responsabilizar um povo pelo desinteresse cultural é, no mínimo, mais uma tentativa do fascismo burguês de esconder sua inoperância administrativa histórica, que deixou de reparar, por séculos, a educação popular em troca do poder perpétuo. Essa prática devemos combater em nome da democracia,em defesa da liberdade de imprensa.
Aos colegas jornalistas que se manifestaram contrários ao posicionamento de Depieri, conforme nota publicada no Jornal Atual (edição 356, ano XI, de 15 de maio de 2010) minha solidariedade e apreço pela coragem. Com ou sem cultura, continuaremos fazendo, diariamente, nossa parte. Mesmo sendo rotulados como os “insignificantes” ou foras da lei. Já para os "jornalistas" da cidade que defendem o fim do jornalismo impresso, lamento tanta idiotice.